A infância de Singer na Polônia

“No tribunal de meu pai”, de Isaac Bashevis Singer, é um livro fascinante sob muitos aspectos. Primeiramente pela leveza e fluidez do texto, que em nada é cansativo ou monótono. Em segundo lugar pelo olhar infantil de um Singer em tenra idade e que, curioso, está sempre atento aos acontecimentos de uma Varsóvia que não existe mais. Um terceiro aspecto é, justamente, esse recorte temporal que desnuda a vida judaica na Polônia do início do século XX. E um quarto aspecto é a descrição, rica em detalhes, da vida cultural e os conflitos das comunidades judaicas do leste europeu. A língua, as festas, os casamentos, os divórcios, os folclores, a busca constante de um rabino (o pai de Singer) pelo conhecimento do Criador e o estudo da Torah, do Talmud e de outros escritos rabínicos.

isaac-bashevis-singer-3

Issac Bashevis Singer

Singer discorre sobre o “tribunal” de seu pai, um rabino pobre, e a vida de sua família na Rua Krochmalna, no número 10, em Varsóvia. Seu pai era procurado com frequência para resolver um “Din Torah”, ou seja, uma querela entre pessoas da comunidade que não chegavam a um acordo comum. Esse trabalho, aliás, era parte do sustento da família, pois o pai recebia certa quantia por cada litígio resolvido.

Isaac discorre, no início do livro, sobre a própria instituição do “Din Torah” e como essa prática tem um caráter humanístico e conciliador, já que as partes tinham que concordar e os três – acusador, acusado e “juiz” – segurar um lenço branco em sinal de aceitação à resolução proposta pelo rabino.

Singer nos mostra aspectos interessantes da vida dos judeus de então, como o esforço do pai para ser um “bom judeu” e sua perplexidade com certas atitudes das pessoas de sua comunidade.

O livro também relata parte da história da família Singer, como seus pais se conheceram e se casaram e como saíram de Bilgoray (uma pequena vila rural) para a capital polonesa.

Não faltam humor e pequenas anedotas da vida doméstica na antiga polônia e podemos ver ainda as práticas religiosas, as indumentárias e tradições dos judeus ashkenazitas.

Os textos que compõem o livro foram originalmente escritos em iídiche (um dialeto dos judeus do leste europeu) e publicados em jornais das comunidades judaicas norte americanas. Certamente um documento riquíssimo que proporciona uma leitura fascinante.

9788535912340

No tribunal de meu pai – 356 páginas – Companhia das Letras, 2008. Tradução do inglês de Alexandre Hubner.

Anúncios

Jo Nesbo: a nova cara dos romances policiais

Vou me referir ao texto de Jo Nesbo como romance policial porque, na verdade, não saberia que outro nome dar. Devo reconhecer que nunca tinha ouvido falar de Nesbo antes de ler uma resenha no jornal Folha de São Paulo sobre o livro “O Leopardo”. Guardei aquele título na cabeça, já que a resenha era extremamente elogiosa ao estilo e vigor literário dessa nova promessa norueguesa da literatura.
Por fim um dia, numa livraria de Belo Horizonte, dei de cara com “O Leopardo” e decidi me aventurar em sua leitura. E o que se deu foi uma grata surpresa. Rapidamente devorei suas 599 páginas. A resenha da Folha não foi tão exagerada como pensei.
O livro, publicado pela Editora Record em sua primeira edição conta a história de um detetive problemático (Harry Hole) que é convencido a deixar Hong Kong – onde se chafurdava no vício e na auto-punição – para voltar à Noruega, a fim de prender um serial kiler que estava aterrorizando a cidade de Oslo.
É interessante que Nesbo consiga inserir vários elementos, como disputas políticas, no contexto da história, além de muitas reviravoltas que nos deixam sempre com a atenção presa ao desenrolar da trama.
É claro que surgem alguns clichês, como a notável capacidade de observação de Hole (ao estilo Holmes), sua postura de anti-heroi e um discreto triângulo amoroso. Mas nada que comprometa a qualidade da obra. Não é atoa que “O Leopardo” se tornou um best-seller com mais de 254 milhões de livros vendidos.
Para quem gosta de romances policiais é um prato cheio.

O Leopardo

A vida radiante na simplicidade

É sempre uma grata surpresa nos deparar com um novo autor que nos prenda e surpreenda com seu texto. Às vezes estamos meio que desanimados com o que andamos lendo. Tudo parece meio igual, meio que pouco estimulante.

Recentemente, por indicação de uma amiga, comprei um livro de um autor totalmente desconhecido para mim (mas bem conhecido no mundo da literatura). Em uma conversa informal, onde falávamos sobre a cultura judaica, a religião e a influência do judaísmo no ocidente, Ana Amélia perguntou de repente: “Douglas, você já leu algum livro do Amós Oz?” Respondi negativamente. “Deveria ler. É um dos meus autores prediletos”. Fiquei curioso em conhecer o trabalho do autor, ainda mais por saber que é israelense. Não me arrependi.

Comprei o livro “Entre amigos”, pouco antes de seguir para a faculdade e na volta para casa, dentro do ônibus, comecei a leitura, que só pude largar depois de sorver cada palavra das 135 páginas.

Fiquei impressionado não só com as histórias, mas principalmente com a narrativa. Enquanto lia, sentia como que sentado em um pequeno banco no Kibutz Ikhat, com o sol batendo no rosto, ouvindo ao longe o barulho do trator, os ruídos das galinhas e do cortador de grama de Tzvi Provizor. Quanta angústia havia naquele texto, quantos conflitos, quanta paixão, quanta vida!

Na simplicidade do texto de Amós Oz eu me afundei. Em cada um dos oito pequenos contos, que se entrelaçam na vida cotidiana dos moradores do Kibutz Ikhat. Em suas vidas comuns e repletas de certezas e incertezas. Vi-me ali junto com eles, em sua comunidade estranhamente socialista. Oz me mostrou um pedacinho de Israel, dos Kibutzim com sua cultura quase distinta do restante do país. Dos conflitos morais entre seus membros. Da singularidade do ser humano.

Um livro que vale a pena ler, mas ler de peito aberto, sem preconceitos, sem esperar muito do que se pode encontrar naquelas páginas.

13348_g