Mussum Forevis: Literaturis de qualidadis

“Estou aqui porque eu sou artistis.
Quero fazer carreiris.
Subir na vidis”.
Mussum

O trapalhão Mussum é um personagem querido de todas as crianças que nasceram antes dos anos 1990 (como eu) e também das que nasceram depois – mas de forma diferente. Minha geração passava os dias de domingo esperando a hora dos Trapalhões para ver o grande quarteto entrar em cena, e as segundas-feiras imitando as piadas do programa na escola.

Quando saiu a biografia escrita pelo jornalista Juliano Barreto, fiquei ansioso para ler. Com um título muito legal, usando como trocadilho a palavra “forever” (“para sempre” em inglês) ao modo de falar de Mussum (colocanis tudis no pluralis com isis) e com o sugestivo subtítulo: “samba, mé e trapalhões”, o livro é delicioso.

Barreto lança luz aos detalhes da vida de Mussum, desde sua infância, a passagem pela aeronáutica, o sucesso como músico, sua consagração como humorista junto aos “trapalhões”, até os “finalmentes” do artista (que eu não pretendo dar detalhes aqui para não atrapalhar quem ainda não leu).

É interessante como percebi que, mesmo gostando e tendo interesse por Mussum, quase nada sabia de sua vida fora das telas e como, na realidade, não fazia muita diferença entre a TV e a vida privada de Mumu da Mangueira.

O que achei mais legal é a forma com que Barreto narra a história de vida de Mussum, sem querer, no entanto, esgotar o assunto (pelo menos é a impressão que tive). Também é muito bom ver fotografias antigas do trapalhão em vários momentos de sua carreira.

“Mussum Forevis, samba, mé e trapalhões” é uma leitura muito agradável, despretenciosa e cheia de pequenos e saborosos detalhes da vida de Antônio Carlos Bernardes Gomes. Vale a leitura.

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Jo Nesbo: a nova cara dos romances policiais

Vou me referir ao texto de Jo Nesbo como romance policial porque, na verdade, não saberia que outro nome dar. Devo reconhecer que nunca tinha ouvido falar de Nesbo antes de ler uma resenha no jornal Folha de São Paulo sobre o livro “O Leopardo”. Guardei aquele título na cabeça, já que a resenha era extremamente elogiosa ao estilo e vigor literário dessa nova promessa norueguesa da literatura.
Por fim um dia, numa livraria de Belo Horizonte, dei de cara com “O Leopardo” e decidi me aventurar em sua leitura. E o que se deu foi uma grata surpresa. Rapidamente devorei suas 599 páginas. A resenha da Folha não foi tão exagerada como pensei.
O livro, publicado pela Editora Record em sua primeira edição conta a história de um detetive problemático (Harry Hole) que é convencido a deixar Hong Kong – onde se chafurdava no vício e na auto-punição – para voltar à Noruega, a fim de prender um serial kiler que estava aterrorizando a cidade de Oslo.
É interessante que Nesbo consiga inserir vários elementos, como disputas políticas, no contexto da história, além de muitas reviravoltas que nos deixam sempre com a atenção presa ao desenrolar da trama.
É claro que surgem alguns clichês, como a notável capacidade de observação de Hole (ao estilo Holmes), sua postura de anti-heroi e um discreto triângulo amoroso. Mas nada que comprometa a qualidade da obra. Não é atoa que “O Leopardo” se tornou um best-seller com mais de 254 milhões de livros vendidos.
Para quem gosta de romances policiais é um prato cheio.

O Leopardo

Gênesis: uma viagem monocromática pelo mundo

Entre 2004 e 2012, Sebastião Salgado andou por 32 regiões do mundo, junto com sua esposa, Lélia Wanick, registrando imagens que buscavam demonstrar a relação do homem com a natureza ao seu redor. O resultado desta experiência foi o conjunto de fotografias que compõem a exposição “Gênesis”.

As imagens capitadas por Salgado são emocionantes e cheias de vida, mesmo estando todas em preto e branco – preferência do fotógrafo.

O fato das fotos estarem em preto e branco fazem com que possamos absorver cada detalhe, sem que cores desviassem a atenção do observador. Salgado nos leva por uma viagem bruxuleante, sonolenta, entre as imagens repletas de tons cinzentos.

A simplicidade e singularidade da vida vão se desenrolando em um fio… Sem início, sem fim. É impressionante o que se pode conseguir com fotos em preto e branco. Para Sebastião Salgado as cores são um luxo do qual ela não tem a mínima necessidade. As fotos de Salgado com cores, simplesmente não seriam dele.

Sebastião Salgado nasceu em Aimorés, Minas Gerais, em 1944. Abandonou a Economia para se dedicar à fotografia em 1973 e desde então tem percorrido o mundo desenvolvendo seus projetos fotográficos.

Em seus trabalhos, Salgado inadvertidamente volta sua lente não apenas para as sociedades e as pessoas que encontra, mas também para o contexto natural e social em que estão inseridas. É uma visão antropológica e crítica não apenas do mundo, mas de toda a sociedade.

Salgado consegue mostrar o mundo como poucos na ausência das cores e abundância da luz.

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Foto: Sebastião Salgado.

A vida radiante na simplicidade

É sempre uma grata surpresa nos deparar com um novo autor que nos prenda e surpreenda com seu texto. Às vezes estamos meio que desanimados com o que andamos lendo. Tudo parece meio igual, meio que pouco estimulante.

Recentemente, por indicação de uma amiga, comprei um livro de um autor totalmente desconhecido para mim (mas bem conhecido no mundo da literatura). Em uma conversa informal, onde falávamos sobre a cultura judaica, a religião e a influência do judaísmo no ocidente, Ana Amélia perguntou de repente: “Douglas, você já leu algum livro do Amós Oz?” Respondi negativamente. “Deveria ler. É um dos meus autores prediletos”. Fiquei curioso em conhecer o trabalho do autor, ainda mais por saber que é israelense. Não me arrependi.

Comprei o livro “Entre amigos”, pouco antes de seguir para a faculdade e na volta para casa, dentro do ônibus, comecei a leitura, que só pude largar depois de sorver cada palavra das 135 páginas.

Fiquei impressionado não só com as histórias, mas principalmente com a narrativa. Enquanto lia, sentia como que sentado em um pequeno banco no Kibutz Ikhat, com o sol batendo no rosto, ouvindo ao longe o barulho do trator, os ruídos das galinhas e do cortador de grama de Tzvi Provizor. Quanta angústia havia naquele texto, quantos conflitos, quanta paixão, quanta vida!

Na simplicidade do texto de Amós Oz eu me afundei. Em cada um dos oito pequenos contos, que se entrelaçam na vida cotidiana dos moradores do Kibutz Ikhat. Em suas vidas comuns e repletas de certezas e incertezas. Vi-me ali junto com eles, em sua comunidade estranhamente socialista. Oz me mostrou um pedacinho de Israel, dos Kibutzim com sua cultura quase distinta do restante do país. Dos conflitos morais entre seus membros. Da singularidade do ser humano.

Um livro que vale a pena ler, mas ler de peito aberto, sem preconceitos, sem esperar muito do que se pode encontrar naquelas páginas.

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A última lição de Márcio Thomaz Bastos*

A Revista do Advogado, periódico da Associação dos Advogados de São Paulo, publicou em sua edição de dezembro de 2014 um artigo póstumo do ex-Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que morreu em 20 de novembro do ano passado.

O artigo intitulado “Um modelo de política de combate à corrupção”, abordou temas como: “os sentidos nocivos da corrupção; possíveis causas do desprezo pelo bem comum; transparência política e administrativa; eficácia comprovada das políticas de transparência administrativa; e o aperfeiçoamento de outras estratégias preventivas”.

Entre estes temas tratados por Bastos, o que mais chama a atenção, – não somente pela atualidade do assunto, mas também pela fácil associação ao nosso cotidiano – são as “possíveis causas do desprezo pelo bem comum”.

Este tópico nos lembra, especialmente, a Reunião Plenária Extraordinária que aconteceu na Câmara Municipal no dia 17 de dezembro de 2014. Na ocasião, vereadores apoiadores do Prefeito votaram contra diversas emendas apresentadas pela Vereadora Alessandra do Brumado. As emendas propunham alterações na Lei Orçamentária para o ano de 2015 e destinavam mais recursos (dinheiro) dos cofres públicos para maior investimento em segurança pública, abastecimento de água, habitação de interesse social, tratamento de dependentes químicos e os programas de apoio à 3ª idade.

Apenas para ilustrar vamos citar a emenda 11/2014 que tinha por objetivo transferir 1 milhão de reais do montante destinado à Câmara Municipal para a aplicação em Programas de Habitação de Interesse Social. A intenção era que o próprio Poder Executivo pudesse criar e implantar seu próprio programa de habitação – como o “minha casa, minha vida” do Governo Federal. Não foi apresentado nenhum argumento para a rejeição da emenda. Os apoiadores do Prefeito apenas votaram contra. Ora, que falta faria 1 milhão de reais sendo que a Câmara neste ano devolverá para a Prefeitura cerca de 1,5 milhão que sobraram do orçamento para 2014? Ficou evidente com esta postura o interesse único e exclusivo de derrubar as emendas, independentemente de serem boas ou ruins.

É lógico que votar contra o aporte de recursos para estas áreas é um evidente sinal de “desprezo pelo bem comum”. O que nos resta é a indagação: porque os vereadores apoiadores do Prefeito votaram contra essas emendas que não tinham objetivo outro senão a melhoria da qualidade de vida da população?

É bom que cada um teça suas próprias considerações a respeito. Todavia, não se pode deixar de considerar um fator estritamente “politiqueiro” no comportamento de alguns Vereadores. Quando passa a falar mais alto o interesse em prejudicar a atuação de um vereador específico, o “desprezo pelo bem comum” se evidencia. Para alguns, não importa que a população fique prejudicada, desde que a “persona non grata” tenha suas iniciativas legislativas frustradas. Uma postura lamentável.

Entre os caminhos sugeridos pelo ex-Ministro em seu artigo está o fomento de uma educação cidadã que mude a mentalidade social. Percebe-se a urgência desta mudança de mentalidade, em todas as instâncias. Nossas instituições não podem continuar com a postura embotada, que muitas vezes pode evoluir para a malversação da coisa pública.

Muitos em nossa cidade deveriam aprender com esta última lição de Márcio Thomaz Bastos.

*artigo originalmente publicado no Jornal Brumadinho Em Foco de janeiro de 2015.