Jornal O Globo reconhece apoio ao Golpe de 64

O reconhecimento do Jornal O Globo de que apoiou a ditadura não soou apenas como um “mea culpa” para os jornalistas que comentaram o assunto no início de setembro. Mais do que isso, foi algo que muitos julgavam que nunca iria acontecer, dada a maneira como as organizações Globo tratam sua principal matéria prima: a notícia.

O texto foi publicado no dia 31 de agosto, no site do Globo como conteúdo do projeto “Memória”, que pretende resgatar e disponibilizar ao público parte do acervo de anos de jornalismo d’O Globo, um dos principais diários de nosso país.

Essa postura do jornal, de reconhecer seu “apoio editorial” ao Golpe de 64, chamou a atenção dos principais jornalistas brasileiros.  Alberto Dines, um dos mais velhos e atuantes jornalistas brasileiros, ressaltou sua surpresa em texto publicado em seu Observatório da Imprensa (Veja aqui: http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/enfim_a_primavera_da_midia_brasileira): “Impensável, mas aconteceu. Com destaque, solenidade e brio, sem justificativas mornas, dubiedades ou disfarces, o Globo, carro-chefe das Organizações Globo, o maior grupo de mídia do Brasil e um dos mais importantes do mundo, admitiu – depois de discussões internas que duraram anos – que o apoio ao golpe militar de 1964 foi um equívoco”.

Parece que realmente os tempos são outros para o jornalismo brasileiro. A chamada “grande imprensa” ficou em cheque com as reivindicações de mais “clareza” nas coberturas, feitas principalmente pelos ativistas participantes das manifestações que tomaram o Brasil desde julho deste ano. O chamado “Mídia Ninja” , com sua mescla grosseira e espontânea de jornalismo e ativismo, têm mudado a forma como é visto, produzido e discutido o jornalismo audiovisual. Agora o Jornal O Globo (talvez pressionado pelos movimentos “antiglobo” que chegaram a levar centenas de pessoas aos portões da emissora no Rio de Janeiro) faz uma autocrítica histórica.

Reconhecer o erro deve implicar em mudança de postura. As Organizações Globo, principal conglomerado de mídia do país, devem rever seus conceitos editoriais (e porque não do próprio jornalismo) a fim de promover uma cobertura mais assertiva. Todo reconhecimento do erro deve ser precedido de uma tentativa de “acerto”.

Memória a um clique

Não podemos deixar de ressaltar o belo trabalho realizado pelo O Globo que disponibilizou parte de seu acervo na internet.

O projeto Memória traz fotos, reportagens, depoimentos e vídeos de um dos principais jornais do país. Destaque para a “linha do tempo” que mostra a dinâmica jornalística da publicação desde seu lançamento, em 29 de julho de 1925.

Acesse em http://memoria.oglobo.globo.com/

Ética e Jornalismo: paradigmas da sociedade moderna

Talvez seja do Jornalista Paulo Moreira Leite a melhor definição que já li sobre o que é ética no jornalismo. “Defender a ética (no jornalismo) é defender os interesses do leitor”. Simples e direto, como o próprio jornalismo deve ser.

Defender o interesse do leitor deve ser interpretado como defender a “verdade”, a veiculação factual de acontecimentos de interesse coletivo. Buscando a objetividade (aqui não pretendendo entrar no mito da objetividade e sim reconhecer que um mínimo de objetividade é possível na atividade jornalística) e informar de forma honesta o leitor/telespectador/ouvinte.

Na visão do jurista Paulo de Abreu Dallari, colocar interesses econômicos e políticos acima da ética jornalística é uma brutalidade que se assemelha à censura totalitária de regimes políticos. Afinal de contas, o artigo 1º do código de ética do jornalismo brasileiro diz que o “acesso à informação pública é um direito inerente à condição de vida em sociedade, que não pode ser impedido por nenhum interesse”. Como então podemos conceber que editorias maliciosas manipulem informações, ou mesmo deixem de publicar notícias de interesse da população?

O interesse social e coletivo, assim como a “função social” do jornalismo torna-se “manco”, “amputado” pelo desserviço de editores e empresas controladoras dos meios de comunicação.

Vimos recentemente o jornal O Globo reconhecer que apoiou “editorialmente” o golpe Militar de 1964. É inconcebível que um veículo de comunicação da expressão d’O Globo leve quase 20 anos para reconhecer seu “alinhamento” à ditadura. Tal confissão não soou apenas como um “mea culpa” de um dos maiores jornais do Brasil, mas sim como um posicionamento quase que forçado em reconhecer os erros do passado em face do descrédito que as organizações Globo vêm sofrendo recentemente.

As manifestações que tomaram as ruas a partir de julho desse ano, além das melhorais para saúde, educação e transporte público, também trouxe a reivindicação de uma imprensa mais justa e verdadeira. Mais comprometida com a ética e a cidadania. O “fora globo”, “globo mente” e outras frases de ordem foram frequentes nestes meses, assim como manifestações em frente aos prédios da Rede Globo.

Infelizmente, é comum lermos notícias, matérias, veiculadas em grandes veículos de comunicação que não cumprem com conceitos básicos da boa prática jornalística, como: ouvir os dois lados, tratar com respeito os diversos atores envolvidos, evitar emitir juízo de valor e fazer uso do chamado “recurso de autoridade” para lidar com informações específicas de áreas distintas do conhecimento.

Desse modo, podemos perceber que nem sempre o jornalismo praticado em nossa sociedade defende os interesses do leitor. Deve-se tomar cuidado, pois quando os interesses daqueles que são a principal razão da existência do jornalismo (os leitores) não são atendidos, a ética nos meios de comunicação se torna impraticável.

REFERÊNCIAS:

ANDRÉ, Alberto, Ética e Códigos da Comunicação Social.

DALLARI, Dalmo de Abeu, Jornalismo Ético, serviço à Humanidade, Jornal do Brasil, 13/07/2012.

LEITE, Paulo Moreira, Um bom exemplo de ética no jornalismo, Revista Época (versão online), 25/12/2008.