A saudade que ficou

João Guimarães Rosa já dizia que as pessoas não morrem, “ficam encantadas”. Pois Paulo Viotti não “encantou” apenas na sua morte (em 21 de janeiro), Viotti encantou durante toda a sua vida. Encantou a família, os filhos, os amigos e quem mais tivesse o prazer de se aproximar desse homem fabuloso. Fabuloso não apenas no caráter firme e eloquente, fabuloso também no “ver a vida”. Essas fábulas, Viotti nos presenteou em seus livros, com seus contos bem humorados, nas trovas zombeteiras. Lembro-me ainda da primeira trova de sua autoria que li, ganhadora de prêmio, emoldurada e pendurada na parede da sala de música, onde Chico ensinava acordes, arpejos e sonhos musicais:

“Do perfil fotografado,

do narigudo infeliz,

No 3×4 apertado

Só coube mesmo o nariz”.*

Essa simplicidade métrica, esse humor singelo era característica de Viotti, que sempre concluía uma conversa com uma anedota ou um comentário bem humorado. É assim que me lembro dele, de quando o conheci, no final da década de 1990, eu com uns 14 anos de idade, queria aprender desenho, depois pintura, depois Esperanto e por fim o violão. Nas aulas da Internacia Lingvo, Viotti nos presenteou um cartão com o Pai Nosso em Esperanto. “Patro nia kiu estas en la cielo”, nos ensinava.

Com a mesma dedicação que nos ensinou o Esperanto, nos ensinou também a música. “Las primeiras leciones de guitarra” de Ferdinando Sagreras, que guardo com muito carinho, também foi um presente seu. Uma semana antes, depois das lições de Esperanto, comentei: “Eu tenho muita vontade de aprender música”. Viotti rebateu: “Ora Douglas, você só não aprendeu ainda porque não quis”. Na semana seguinte lá estava eu tirando os primeiros sons no violão. Instrumento este que Viotti muito gentilmente me emprestou, até que eu pudesse comprar um.

Que saudades das noites de sábado, na sala de música, lutando com as partituras. Francisco Silva, o Chico, com paciência de Jó, nos ensinava também. Chico, Amador, Renato, José Xavier, José Tibúrcio, Angelita, Jurgem, Valdir de Castro Oliveira e tantos outros amigos frequentavam aquela casa. Viotti tinha o dom de reunir à sua volta pessoas sensíveis, dedicadas, interessadas com as artes e com o ser humano.

“Toda dor é reduzida

Quando é dor compartilhada:

Alegria repartida

É alegria dobrada!”

Mesmo com a saúde debilitada continuava produzindo. Trovas, poemas, estórias, música. Com músicos e amigos produziu o “Minas Seresteira”, CD com várias músicas e poemas musicados. Sua saúde já debilitada não o impedia de continuar sua produção intelectual. Vieram mais livros, em parceria com amigos e com um parente distante, que um dia lhe bateu a porta. “Oi, queria lhe dizer duas coisas, a primeira é que também sou ‘Viotti’”. Paulo Viotti interrompeu: “Então entra e senta. Qual é a segunda?”. O tal parente era Ari Viotti, também poeta, queria compartilhar com ele suas incursões literárias. Foi o início de uma bela amizade que culminou no livro “Prosas e Versos Escolhidos – Manifestação de sabedoria e alegrias”. Este último livro lançado em maio de 2011 trazia também textos de outro amigo, Douglas Koscky Fernandes.

Paulo Viotti nos deixou lindas trovas, canções, pinturas, desenhos, peças, e agora, mais do que nunca, saudades. Cada um que pôde conviver com ele guardará na memória momentos inesquecíveis. Fica a nossa homenagem.

“A despedida chegando,

Não tenho felicidade,

Saudades tantas deixando,

Levando tanta saudade!”

*as trovas neste texto são de autoria de Vicente de Paula Viotti, publicadas no “Livro para gente pequena e grande”, 2ª edição.

Paulo Viotti ao lado da filha Paolinha

Paulo Viotti ao lado da filha Paolinha