Quem lê poesia?

Imagino que todos que gostam de poesia tenham uma relação muito pessoal com a palavra. O som das sílabas, as formas das letras, as junções de fonemas e os diversos significados que cada palavra pode ter são um infinito particular de possibilidades nas mãos de um poeta. Com todo este “material” (como diriam os concretistas) o poeta pode alçar voos distintos, ousar, buscar novas formas de significado e significância.

Não entendo como alguns veem a poesia como uma forma menor de literatura. No Brasil não se lê muito poesia, mas esta realidade está mudando. De acordo com o instituto Proler no relatório “Retratos da Leitura no Brasil” (dados de 2008), a poesia é o quinto gênero na preferência dos leitores (28%). Deste montante, as mulheres são as que gostam mais do gênero (32%). Pode parecer pouco, mas não é. Um dado é ainda mais animador: jovens entre 11 e 17 anos tem a poesia como gênero preferido. O gosto pela poesia tem começado cedo se tornado uma atividade dos jovens.

Tenho minha própria teoria quanto à falta de interesse de alguns pela poesia: as pessoas não gostam desse gênero porque não tiveram cuidado e paciência para ler (ou talvez por não serem sensíveis ao texto poético). Como não gostar dos sonetos de Vinicius de Moraes, dos poemas esotéricos de Fernando Pessoa, da suavidade de Garcia Lorca, da densidade de Cummings ou dos poemas-reportagem de Fabrício Marques? Poderia eu citar muitos outros, mas a intenção não é essa.

Certamente um fato tem contribuído para o aumento do interesse pela poesia, o aumento no número de eventos como saraus, tertúlias, poemações, poemashows, encontros e noitadas em bares e em clubes. Espaços que animam as leituras e performances de poesia como o Verão Poesia, o Belô Poético, as Terças Poéticas no Palácio das Artes e os encontros com a poesia na Praça 7, todos em Belo Horizonte, são exemplos de como têm crescido os espaços voltados para a leitura e apresentação de poemas.

A poesia talvez seja uma forma de ver o mundo, quem lê poemas consegue ver por vários ângulos diferentes.

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O casal do bar

É engraçado como tomamos conclusões apressadas. Quando fazemos isso é praticamente certo nos lançar ao erro. E isto às vezes se dá de formas bem engraçadas. Lembro-me bem de certa ocasião em que estávamos eu e Vítor, amigo dos tempos de estudante no colégio Pio XII, sentados a mesa de um barzinho nas proximidades da Avenida do Contorno, em Belo Horizonte.

Bebíamos despreocupadamente. Vitor, sempre com suas piadas escarnecidas, repletas de um humor negro e viril, falava a respeito de um assunto qualquer quando percebi que um casal sentara-se à mesa em frente a que ocupávamos. Até então nada demais. Porém, passando algum tempo, percebi que a moça me olhava fixamente. Fiquei meio sem jeito com aquela situação e olhei para outro lado tentando despistar meu rubor.

A conversa continuava animada quando percebi que ela continuava olhando fixamente para mim, na “cara dura”. Cheguei a ficar preocupado com a possibilidade de o namorado dela, ofendido, vir tirar satisfações comigo a respeito do “flerte” descarado. Imagine só o destemido namorado “lavando a minha cara” em razão do notório interesse de sua companheira em mim! Certamente seria no mínimo desconcertante.

A situação me incomodou tanto que cheguei a cogitar a ideia de mudar de mesa, quando percebi um detalhe que ainda não havia levado em conta: A garota era cega! Por isso olhava constantemente para frente, não enxergava! Me senti tão bobo com aquilo. Eu achando que ela estava me “encarando”, que estava com algum interesse em mim enquanto que, na verdade, ela era simplesmente cega.

Foi então que passei a observar o carinho com o qual aquele rapaz tratava sua namorada, colocando os talheres a sua frente e lhe mostrando onde estavam, enchendo seu copo, ou apenas limpando sua boca cuidadosamente com o guardanapo. Me senti pequeno diante daquela demonstração de ternura, carinho e amor. Hoje, Dia dos Namorados, esta lembrança se mostrou ainda mais viva, como se me dissesse: “vá e cuide de quem você gosta”.