Sangue na neve: crime e redenção de um disléxico

Já havia publicado por aqui uma resenha a respeito de “o leopardo”, primeiro livro que li de Jo Nesbo. Achei o livro ótimo, como vocês poderão rememorar aqui.

Recentemente resolvi ler o famoso “sangue na neve”, que é o livro que chamou a atenção do mercado editorial para Nesbo (pelo menos é o que fiquei sabendo).

Não se trata de uma estória envolvendo o já famoso personagem de Nesbo, Harry Hole, mas da vida de um assassino profissional disléxico (acho que foi isso que mais me chamou a atenção).

O texto é narrado em primeira pessoa, do ponto de vista de Olav (nosso assassino) e mostra a confusão em que se meteu ao tentar agir por conta própria quando seu “patrão” lhe encomendou um “servicinho” simples e rápido.

Nesbo discorre de forma dinâmica, prendendo a atenção do leitor, e demonstra, no desenrolar da trama, fatos e acontecimentos da vida de Olav em Oslo (onde se passa os acontecimentos).

Nosso protagonista possui um certo interesse (fetiche?) em proteger “mulheres problemáticas”. Teve uma relação desgastante com o pai e a mãe e fala como se inseriu no mundo do crime, as dificuldades que teve com outros “trabalhos” e sua condição de “disléxico”.

É interessante o raciocínio de Olav, as vezes inteligente e elaborado, as vezes simplista e um pouco ingênuo.

No entanto, o que julgo mais interessante no livro foi mostrar o ponto de vista por parte de Olav, as vezes demonstrando que ele pudesse estar interpretando os acontecimentos ao seu redor de forma equivocada.

Um bom livro, sem sombra de dúvida.

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Sangue na neve. Autor: Jo Nesbo. 154 páginas. Editora Record, 2015. Tradução de Gustavo Mesquita.

 

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A infância de Singer na Polônia

“No tribunal de meu pai”, de Isaac Bashevis Singer, é um livro fascinante sob muitos aspectos. Primeiramente pela leveza e fluidez do texto, que em nada é cansativo ou monótono. Em segundo lugar pelo olhar infantil de um Singer em tenra idade e que, curioso, está sempre atento aos acontecimentos de uma Varsóvia que não existe mais. Um terceiro aspecto é, justamente, esse recorte temporal que desnuda a vida judaica na Polônia do início do século XX. E um quarto aspecto é a descrição, rica em detalhes, da vida cultural e os conflitos das comunidades judaicas do leste europeu. A língua, as festas, os casamentos, os divórcios, os folclores, a busca constante de um rabino (o pai de Singer) pelo conhecimento do Criador e o estudo da Torah, do Talmud e de outros escritos rabínicos.

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Issac Bashevis Singer

Singer discorre sobre o “tribunal” de seu pai, um rabino pobre, e a vida de sua família na Rua Krochmalna, no número 10, em Varsóvia. Seu pai era procurado com frequência para resolver um “Din Torah”, ou seja, uma querela entre pessoas da comunidade que não chegavam a um acordo comum. Esse trabalho, aliás, era parte do sustento da família, pois o pai recebia certa quantia por cada litígio resolvido.

Isaac discorre, no início do livro, sobre a própria instituição do “Din Torah” e como essa prática tem um caráter humanístico e conciliador, já que as partes tinham que concordar e os três – acusador, acusado e “juiz” – segurar um lenço branco em sinal de aceitação à resolução proposta pelo rabino.

Singer nos mostra aspectos interessantes da vida dos judeus de então, como o esforço do pai para ser um “bom judeu” e sua perplexidade com certas atitudes das pessoas de sua comunidade.

O livro também relata parte da história da família Singer, como seus pais se conheceram e se casaram e como saíram de Bilgoray (uma pequena vila rural) para a capital polonesa.

Não faltam humor e pequenas anedotas da vida doméstica na antiga polônia e podemos ver ainda as práticas religiosas, as indumentárias e tradições dos judeus ashkenazitas.

Os textos que compõem o livro foram originalmente escritos em iídiche (um dialeto dos judeus do leste europeu) e publicados em jornais das comunidades judaicas norte americanas. Certamente um documento riquíssimo que proporciona uma leitura fascinante.

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No tribunal de meu pai – 356 páginas – Companhia das Letras, 2008. Tradução do inglês de Alexandre Hubner.

A importância das abelhas para o meio ambiente

Em Brumadinho, o ambientalista Maurício de Oliveira se esforça a anos para resgatar e proteger as dezenas de espécies de abelhas presentes em todo o município.

Em um primeiro momento pode parecer que as abelhas não tem muita relevância para o meio ambiente. Talvez por ser um animalzinho pequenino, frágil e aparentemente irrelevante. Porém é exatamente o contrário.

As abelhas desempenham um importante papel para o meio ambiente: o de polinizadoras. Elas são responsáveis por espalhar “material genético” por toda área em que atuam, além de ser uma das espécies de seres vivos mais interessantes que existem.

Foi toda essa “importância ambiental” que despertou no ambientalista Maurício de Oliveira o interesse pelas abelhas. Ele se empenha em fazer o resgate e a proteção de diversas colmeias. Conhecido popularmente como “Piau”, Maurício trabalha com o resgate de abelhas a cerca de três anos. Chegou a trabalhar na Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMA), mas foi exonerado recentemente. Porém continua trabalhando como voluntário, dada sua paixão pelas abelhas.

De acordo com Maurício, dentro da área urbana de Brumadinho existem aproximadamente 50 colmeias de abelhas resgatadas (como as da foto que ilustra esta matéria). No entanto existem ainda mais de duas centenas de colmeias mapeadas e monitoradas por ele. “Existem aproximadamente 19 espécies de abelhas no município de Brumadinho, inclusive uma espécie pouco comum, chamada de Mandaçaia [Melipona Quadrifasciata]”, explica.

Ainda segundo Maurício as abelhas são as principais responsáveis pela polenização cruzada de centenas de espécies de plantas. “Cerca de 80% das árvores são polenizadas por elas [as abelhas]. Poderiamos afirmar que se as abelhas fossem extintas, a Mata Atlântica correria o risco de desaparecer também. Ou ainda poderíamos dizer que quanto menos abelha, menos comida”, considera. A polinização é a transferência de material genético da parte masculina para a parte feminina da flor.

Pode parecer exagero, mas especialistas afirmam que o papel das abelhas é tão importante que, por exemplo, se o café for cultivado perto da mata (onde haja a presença de abelhas), há um aumento de 15% na produção de grãos. Outro alerta que especialistas também fazem é que, caso haja a extinção de abelhas ou a redução de sua área de distribuição geográfica haverá também a diminuição na quantidade e qualidade de frutos e sementes produzidas e, consequentemente, na produção mundial de alimentos, como Maurício fez questão de frisar.

Deixando de lado previsões catastróficas a respeito da extinção destes importantes polenizadores, devemos considerar que o resgate e proteção das diversas espécies de abelhas é importante para a manutenção de um meio ambiente equilibrado.

Para Maurício o poder público tem papel importantíssimo para proteger esses animaizinhos. É compreensível sua preocupação, afinal de contas, depois de descobrir um pouco mais sobre as abelhas, quem duvidaria de sua relevância para o meio ambiente?

*Artigo originalmente publicado no jornal Circuito Notícias de Brumadinho, edição de novembro de 2016.

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Maurício de Oliveira mostra algumas das colmeias resgatadas por ele.

2016 terá 2ª temporada de “Demolidor”

Marvel e Netflix anunciaram continuidade da série.

Texto originalmente publicado no site Cultura Nerd & Geek.

"Demolidor" é a primeira série da parceria entre Marvel e Netflix (Foto: Divulgação).

“Demolidor” é a primeira série da parceria entre Marvel e Netflix (Foto: Divulgação).

A série “Demolidor” ganhou os fãs de todo o mundo e deve ter prosseguimento em 2016. A série deverá continuar a ser disponibilizada através de streaming para os assinantes da Netflix, que tem se firmado no setor de audiovisual voltado especialmente para a web.

Os 13 episódios da nova temporada deverão ser disponibilizados de uma vez, como aconteceu este ano.

Segundo o site G1, “Demolidor” foi a segunda série mais pirateada em sua estreia, com cerca de 2,1 milhões de usuários fazendo downloads, de 50 países diferentes.

Demolidor teve sua estreia nos quadrinhos do universo Marvel, com estórias viciantes e bem produzidas por verdadeiras “feras” das HQ’s.

Não podemos esquecer, por exemplo, de “a queda de Murdock”, um dos melhores enredos do herói, quando Matt Murdock (o Demolidor) teve sua identidade revelada para o “Rei do Crime”, o que fez de sua vida um verdadeiro inferno.

A estória veio à luz pelas mãos de Frank Miller e David Mazucchelli e foi originalmente publicada na revista “Superaventuras Marvel” em 1986, a “conta gotas”, em sete edições (números 62, 63, 64, 65, 66 e 67, respectivamente).

“A queda de Murdock” ainda contou com a aparição do Capitão América e dos Vingadores, além de mostrar o verdadeiro paradeiro da mãe de Matt em um momento em que o herói está em estremas dificuldades.

No entanto – e como é de se esperar – Matt Murdock dá a volta por cima. Certamente uma das melhores aparições e tramas do “Demolidor: o homem sem medo” no mundo dos quadrinhos. Vamos torcer para que essa nova série também seja assim.

Edições da revista "Superaventuras Marvel", onde foi publicada originalmente no Brasil a "queda de Murdock" em 1986 (Foto: Douglas Maciel, arquivo pessoal).

Edições da revista “Superaventuras Marvel”, onde foi publicada originalmente no Brasil a “queda de Murdock” em 1986 (Foto: Douglas Maciel, arquivo pessoal).

Cérebro pode suportar congelamento por criogenia

Texto originalmente publicado no site: Cultura Nerd & Geek.

Cena do filme “Prometheus”, em que Elizabeth Shaw (Noome Rapace) está em um “sono criogênico” e sob a vigília do androide David (Michael Fassbender).

Cena do filme “Prometheus”, em que Elizabeth Shaw (Noome Rapace) está em um “sono criogênico” e sob a vigília do androide David (Michael Fassbender).

Parece que o congelamento por criogenia não está presente apenas nas telas dos cinemas. Dois pesquisadores (que infelizmente não pudemos identificar quais, e de qual programa de pesquisa) fizeram experiências com duas minhocas e constataram que o cérebros delas pode “sobreviver” ao congelamento criogênico.

A pesquisa se deu da seguinte maneira: as duas minhocas foram “ensinadas” a se moverem para determinados locais por estímulo do cheiro de óleo de amêndoas. Depois, as minhocas foram congeladas em uma solução criogênica a base de glicerol. Após serem descongeladas, as minhocas não só foram reanimadas, como também não “esqueceram” de seu “treinamento” anterior.

Certamente, essa experiência foi um grande passo para o desenvolvimento da criogenia (mesmo que tenha sido feito com minhocas). No entanto, a divulgação dessa pesquisa levou para o centro da discussão o debate sobre a ética no – possível – congelamento criogênico de corpos humanos. Fato é que o ser humano continua querendo dar um jeito de driblar a morte.

Diversos filmes do universo Geek já utilizaram a criogenia em seus enredos. Um exemplo é o filme “Prometheus” (escrito por John Spaihts e Damon Lindelof, e dirigido por Ridley Scott), onde a tripulação de uma nave estelar viaja em um “sono criogênico” enquanto um androide monitora a viagem.

A criogenia – no contexto em que apresentamos aqui – é um ramo de pesquisa que estuda tecnologias para a produção de baixas temperaturas, de forma a preservar “corpos” por tempo indeterminado e, depois, reanimá-los, sem prejuízos para suas estruturas físicas e cerebrais.

Um barco à deriva

A impressão que se tem ao observar os rumos do governo municipal é a de que este se assemelha a um “barco à deriva”. Vagueia sem rumo definido, ora indo para um lado, ora a outro. A princípio, pode-se enumerar, pelo menos, quatro razões para que um barco fique à deriva. O primeiro deles é a inexistência de um “capitão”. A “tripulação” não sabe o que fazer, nem a quem obedecer, por não existir uma “figura” central que detenha voz de comando na embarcação.

A segunda razão é a ausência de uma “bussola” que aponte o “norte” e oriente o rumo a seguir. Sem tal instrumento pode-se até saber onde se quer chegar, mas não qual direção tomar para ter êxito.

A terceira razão é a inexistência de um “leme”, instrumento bem pequenino, mas essencial para conduzir o barco. Talvez tenha-se quebrado, ou mesmo nunca tenha sido usado.

Finalmente, a quarta razão, que talvez seja a mais próxima da realidade, é o “motim”. Motim é uma revolta da tripulação que não concorda com o rumo traçado (por não ser o caminho que todos querem tomar), pela insatisfação com aquele que detém o poder de comando, o “capitão”, ou ainda por se sentirem oprimidos com o “peso” das ordens recebidas.

Talvez seja uma dessas razões (ou mais de uma delas) que tenha feito com que o vice-prefeito de Brumadinho, Breno Carone, entrasse com uma denúncia contra o prefeito na Câmara Municipal. Um motim que possui seus motivos. Seja pelo alijamento que Carone afirma estar sofrendo por “não concordar com as atitudes da administração atual” ou por outro que não conhecemos.

No entanto, a razão pela qual Carone tem se orientado para denunciar seu companheiro de chapa, de campanha e de governo perde um pouco da importância frente às provas apresentadas em sua denúncia. São, a princípio, quatro denúncias. Duas delas já de amplo conhecimento da população/tripulação: o pagamento indevido de gratificações a servidores públicos contratados, em desacordo com a legislação; e diversos requerimentos de Vereadores que, ou não foram respondidos, ou foram respondidos fora do prazo previsto em Lei. Essas duas denúncias já foram apresentadas por Guilherme Morais anteriormente na Câmara, mas não foram acatadas na época em razão de “vicio jurídico” na aquisição das provas apresentadas.

As duas novidades são: o estouro da folha de pagamento, que segundo informações da própria Prefeitura estaria (com o aumento de 6% aprovado pela Câmara) no limite de 53,9% da receita corrente líquida. Aqui vale informar que, segundo a Lei, ultrapassados 51,3% a prefeitura já fica automaticamente impedida de uma série de atos administrativos como a concessão de aumentos, reajustes ou adequação de remuneração e o impedimento da criação de cargo, emprego ou função, entre outras coisas. Deve ser por isso que o concurso público da Guarda Municipal ainda não empossou ninguém.

A segunda novidade é a quantidade de cargos a mais na prefeitura a despeito do que está estipulado na Lei. A própria prefeitura publicou no “portal da transparência” (nome irônico, é verdade) o quadro de servidores. Se comparada esta lista disponibilizada pela Prefeitura com o que está previsto na Lei 2.142/2015 percebe-se que vários cargos possuem mais servidores que vagas. Como exemplo – e de acordo com a denúncia de Carone – o anexo da Lei 2.142/2015 prevê a existência de 20 vagas para o cargo de “analista da administração”, porém, segundo a relação da prefeitura, existem 49 “analistas da administração” no município, 29 a mais do que o previsto na Lei. Esse é apenas um dos 9 cargos onde há mais servidores que vagas.

A denúncia feita na Câmara veio acompanhada de vasta documentação e colocada para apreciação dos Vereadores na Reunião Plenária do dia 28 de maio. Uma maioria apertada, de 7 vereadores, votou pelo recebimento da denúncia e 6 Vereadores pelo arquivamento. Por se tratar de votação onde, para ser acatada, a denúncia precisa da maioria absoluta (9 Vereadores), a denúncia foi arquivada. Segundo Carone, a denúncia também foi protocolada no Ministério Público municipal.

A aparente calmaria que se estabeleceu nos mares por onde vagueia a nau desorientada do Executivo, no entanto, não é sinal de que tudo está bem, pois, segundo a “meteorologia”, novas tempestades estão por vir… veremos…

“Não são os homens, mas as ideias que brigam”

Artigo publicado no jornal Brumadinho em Foco, edição nº 29, de maio de 2015.

As pessoas geralmente gostam de criticar, mas nunca aceitam bem as críticas sofridas. Não sou psicólogo para inferir qualquer razão a este comportamento, fato é que acontece desta maneira.

Talvez, o campo da atividade humana em que as pessoas devessem ter menos melindres com as críticas sofridas seja a política. Na política é bom e importante ouvir críticas, ponderá-las, aceita-las (ou não) e mudar atitudes e posicionamentos. Nunca estamos certos em tudo.

Todavia, o que me deixa mais perplexo na realidade de nossa cidade é como o Poder Executivo reage mal às críticas que sofre. Agora, ainda mais, está lançando mão de “notas de esclarecimento” repudiando as críticas.

Cabe fazer um pequeno esclarecimento filológico: a palavra “repúdio” tem por sinônimo a palavra “desprezo” e, de forma geral, é uma rejeição a uma mentira. Portanto, é bom que tenhamos cuidado ao “repudiar” o que quer que seja, salvo se a crítica seja realmente uma mentira.

Quero rememorar duas passagens que foram alvo de notas de repúdio por parte do Poder Executivo publicadas no Diário Oficial do Município (DOM).

A primeira é a nota publicada no DOM 395, no dia 25 de março, onde o Procurador Geral do Município (pasmem) declarou seu “veemente protesto, repúdio e inconformada repulsa” a um artigo de opinião de autoria do Sr. Mardocheu Parreiras publicada neste Brumadinho em Foco na edição de nº 27. A nota foi assinada pelo dito Procurador e também (pasmem novamente) pelo Prefeito.

Particularmente fiquei encabulado e tratei de ler novamente o artigo do Sr. Mardocheu e constatei que a nota fazia menção ao último parágrafo do artigo que dizia o seguinte: (…) “A sorte nossa é que temos um prefeito honesto e bem intencionado, porém confia muito nos seus comandados e a maioria não corresponde à confiança recebida, sobretudo o jurídico que só usa o rigor da lei para emperrar a administração” (…)

Não posso identificar neste texto nada que mereça “repúdio e inconformada repulsa”. Houve apenas, e tão somente, uma crítica de nosso amigo articulista ao jurídico da Prefeitura e um descarado elogio ao Prefeito. E vejam que este último ainda assinou a nota publicada no DOM. As vezes me pergunto se o Prefeito se deu ao trabalho de ler o artigo do Sr. Mardocheu.

A nota ainda diz que Procurador e Prefeito preferem “acreditar não se tratar do verdadeiro pensamento de seu autor, nem desse veículo de mídia impressa, mas de ideias que retratem o pensamento de terceiros”. Ora, tal nota insinua que o Sr. Mardocheu não escreve o que assina no jornal e pior, que os editores do Brumadinho em Foco não tem poder de decisão sobre o que o jornal publica. Nunca li algo tão estapafúrdio.

Eis a segunda passagem: a Vereadora Alessandra do Brumado publicou no dia 13 de abril, em seu blog, um artigo de opinião criticando a Secretaria de Administração uma vez que a Prefeitura de Brumadinho estava na eminência de estourar o orçamento com pagamento de pessoal.

Logo veio, galopante, a “nota de esclarecimento” publicada no DOM 409, do dia 15 de abril. O texto vinha manifestar “repúdio sobre as declarações infundadas da vereadora Alessandra do Brumado”. Nota-se que o texto diz que Alessandra é mentirosa por desconfiar (e provar) em seu artigo que a Prefeitura estava a ponto de ultrapassar o limite prudencial previsto em Lei de 51,3% do orçamento com pagamento de pessoal.

Todavia, no dia 24 de abril durante reunião de comissões e plenária da Câmara Municipal, constatou-se que, com o aumento de 6% para o funcionalismo público, a Prefeitura conseguiu a proeza de comprometer 53,9% da folha com o pagamento de pessoal. Ou seja, muito mais do que Alessandra desconfiava e que foi considerado como “mentira” por parte da Prefeitura. Afinal, quem está mentindo?

A Vereadora ainda retrucou a “nota de esclarecimento” no dia 15 de abril, “desenhando” o raciocínio inicial e se posicionando favoravelmente ao aumento (afinal, uma questão de justiça para com o servidor municipal), mas contrariamente ao caminho pelo qual o Poder Executivo pretende se embrenhar.

Cabe ainda uma outra reflexão. Seria o DOM veículo apropriado para a veiculação destas notas de repúdio? Lendo atentamente a Lei que criou o DOM percebemos que o diário se destina a publicação de atos do Executivo e não a notas de repúdio de secretários e procuradores melindrados.

Finalmente, já que estamos em um estado democrático – e ainda não se descobriu outro modelo melhor – temos que encarar críticas com sentimento também democrático. Ter amor pelo debate, mesmo que severo, porém respeitoso. Não colocar nossas paixões pessoais na política, mas seguir a tão célebre constatação de Tancredo Neves: “não são os homens, mas as ideias que brigam”.